Nos posts anteriores da nossa série “As cinco palavras do Evangelho”, tratamos dos temas pecado, julgamento, culpa e salvação. Na primeira parte, aprendemos que pecado significa “errar o alvo” dos padrões de Deus, desobedecendo a Deus ou maltratando o nosso próximo. Na segunda parte, aprendemos que, por termos errado esse alvo, há consequências, e que Deus as executará. Na terceira parte, aprendemos o que é a culpa e que Deus usa a culpa para nos mostrar a nossa necessidade de um Salvador. Na quarta parte, aprendemos sobre a salvação, o presente de Deus para nós por meio de Jesus Cristo. Hoje concluímos a série “As cinco palavras do Evangelho” com o nosso último tema: o dever cristão.
Você foi salvo. E agora?
Então, depois de aceitar Cristo como seu Salvador, o que você faz em seguida? Simplesmente continua a vida como se nada tivesse acontecido? Precisa fazer boas obras para manter a salvação? Muitas pessoas têm essas dúvidas depois de serem salvas, mas quase todas podem ser resumidas na pergunta: “Qual é o meu dever como cristão?” E é essa a pergunta que queremos responder hoje.
Eu simplesmente continuo a vida como se nada tivesse acontecido?
Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.
2 Coríntios 5:17
Por este versículo, podemos ver que a vida do cristão não deve permanecer a mesma depois da salvação. As Escrituras ensinam que tudo muda! A pessoa é uma nova criatura, um novo homem ou uma nova mulher; o velho homem se foi completamente! O versículo 15 nos dá o motivo:
E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.
2 Coríntios 5:15
Estávamos mortos antes de Cristo nos salvar, mas, quando Cristo nos salvou, passamos da morte para a vida. Deus nos deu esta nova vida; nada mais justo do que vivê-la para Ele. No entanto, Deus não nos obriga a viver para Ele. Podemos escolher viver correndo atrás dos nossos próprios desejos, mas fazer essa escolha significa perder a verdadeira alegria que servir a Cristo traz.
Preciso fazer boas obras para manter a salvação?
De forma alguma! Efésios 2:8-9 diz:
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.
Não fizemos nada para obter a nossa salvação; ela foi um presente! Então, por que teríamos de fazer algo para mantê-la? Jesus deixa isso claro em João 10:29:
Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las das mãos de meu Pai.
A Bíblia diz que ninguém pode nos arrebatar: nem eu, nem você, nem o vizinho da rua de baixo e, com certeza, nem Satanás. Uma vez que recebemos a salvação, a graça de Deus nos guarda seguros em Seus braços. Nenhuma quantidade de pecado ou apostasia chega sequer perto de vencer a graça do nosso Deus infinito. Ainda assim, devemos nos esforçar deliberadamente para fazer boas obras, porque isso glorifica a Deus e também nos dá alegria e satisfação pessoal. Mas a nossa pergunta ainda não foi respondida: quando alguém é salvo, o que deve fazer em seguida?
O que eu faço em seguida?
Felizmente, as Escrituras são claras sobre o que devemos fazer depois da salvação. Em Mateus 28:19, Jesus nos instrui:
Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
Aqui Jesus diz àqueles que ensinam o Evangelho que batizem os que o receberam. Vemos isso posto em prática mais tarde, em Atos 2:41, onde diz:
De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e, naquele dia, agregaram-se quase três mil almas.
Com isso, vemos que aqueles que são acrescentados à igreja por meio da salvação são orientados a ser batizados. Mas o que é o batismo?
O que é o batismo?
A palavra “batismo” vem da palavra grega “baptizo”, que significa “imergir”. A palavra “batizar” pode se referir a dois acontecimentos na vida do crente. O primeiro batismo, o batismo do Espírito, é um batismo espiritual. Ele se refere à salvação, especificamente ao dom do Espírito Santo concedido ao crente. Marcos 1:8 nos apresenta pela primeira vez a ideia desse batismo, quando João Batista diz:
Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
Quando cremos em Cristo, Deus nos “imerge” no Espírito Santo. O Espírito nos enche e nos envolve, capacitando-nos a servir ao Senhor com eficácia. Esse batismo também nos permite viver continuamente com o Espírito de Deus em nós, para que Ele interceda a Deus por nós, apresentando pedidos em nosso favor que estejam de acordo com a vontade de Deus (Romanos 8:26-27). O segundo tipo de batismo é físico e é uma representação do batismo do Espírito Santo. É uma ordenança praticada como sinal exterior da mudança interior no crente. Jesus ordenou que todos os novos crentes participassem dela, para que pudessem tornar visível ao mundo exterior o batismo interior e invisível do Espírito realizado por Deus.
O que significa o batismo?
O processo adequado do batismo envolve um crente, geralmente um ministro, imergindo um novo crente na água. A própria água representa purificação. Antes de Jesus vir à terra, o batismo era um ritual judaico que representava uma nova consagração ao Senhor. A imersão na água lavava simbolicamente os pecados, dando ao crente um recomeço em relação aos pecados que ele estava confessando. Depois que Cristo veio, Ele mesmo acrescentou duas novas imagens a essa tradição. Primeiro, a submersão do crente na água passou a representar a morte e o sepultamento de Cristo. Assim como Cristo morreu e foi sepultado, da mesma forma o crente morre para o seu antigo eu, e o seu velho homem pecaminoso é sepultado para nunca mais se levantar. Segundo, a saída da água passou a representar a ressurreição de Cristo. Assim como Cristo ressuscitou do sepulcro com nova vida, da mesma forma o crente também é ressuscitado para andar em novidade de vida. Sua morte se transforma em vida; ele recomeça e, pela primeira vez, vive de verdade em Cristo. O batismo é um momento empolgante para o crente e um belo retrato do que Cristo fez por nós.
Isso é tudo?
Isso não é a única coisa que Deus deseja que os cristãos façam. Acabamos de falar de uma nova vida; afinal, isto é só o começo. A pergunta é: como alguém começa a viver como nova criatura? Como começamos a cumprir o nosso dever cristão? A Bíblia nos diz que devemos estar sempre crescendo à semelhança da imagem de Deus (Romanos 8:29). Mas como podemos fazer algo que parece tão… impossível? Por onde começar? Há tanto para aprender! Então, para simplificar, vamos ao básico. Há um bom resumo do nosso dever para com Deus em Miqueias 6:8, que diz:
Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a beneficência, e andes humildemente com o teu Deus?
Com isso, vemos que Deus deseja três coisas dos Seus seguidores: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Ele. (A Almeida Revista e Corrigida diz “ames a beneficência”; a palavra hebraica chesed fala de bondade fiel e misericórdia, por isso muitas versões traduzem “amar a misericórdia”.)
Praticar a justiça
Primeiro, vejamos o que é praticar a justiça. A palavra hebraica aqui é “mishpat”, que neste versículo é usada para dizer que Deus quer que você faça o que é certo. A ideia básica da palavra hebraica para uma pessoa justa é “alguém que acerta as coisas”, e isso se liga diretamente à palavra “mishpat”. “Mishpat” é o processo de acertar as coisas. É a palavra usada para aquilo que o juiz determina como reparação num julgamento. Por exemplo, na lei judaica, se um homem matasse acidentalmente o boi de alguém, segundo a lei, o mishpat era dar-lhe dinheiro suficiente para comprar um boi novo (Êxodo 21:33-34). Com isso, vemos evidências de que mishpat significa “acertar as coisas”, porque o homem culpado devia restituir o valor exato perdido com a morte do boi e, assim, restabelecer o equilíbrio. Com uma compreensão correta da justiça, podemos ver que Deus deseja que nós, cristãos, façamos o que é certo e, quando falharmos, nos esforcemos para acertar as coisas entre nós e aquele a quem prejudicamos. Não é a ausência de pecado que nos distingue como cristãos, mas a forma como reagimos quando pecamos. Como dizem as Escrituras (Provérbios 24:16):
“Porque sete vezes cairá o justo e se levantará”
Parte desse levantar-se é acertar as coisas. Devemos sempre procurar tratar as pessoas de maneira correta e justa. Assim, quando percebermos que erramos, a nossa primeira reação como cristãos deve ser acertar as coisas e restabelecer o equilíbrio de todas as formas possíveis.
Amar a misericórdia
Em segundo lugar, temos amar a misericórdia. Esta é bem simples: Deus quer que sejamos rápidos em demonstrar misericórdia e perdoar, em vez de rápidos em condenar. Como cristãos, não devemos nos encher de ira facilmente, nem estar focados em revidar, nem ser pessoas que julgam os outros. A ira e a vingança são duas coisas que a maioria dos cristãos sabe que não deve praticar, mas o julgamento, por outro lado, é algo de que frequentemente nos esquecemos. João 12:47b-48 diz:
eu vim não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeitar a mim e não receber as minhas palavras já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último Dia.
Aqui vemos que nem mesmo Jesus veio para julgar o mundo; antes, Ele deixou o julgamento para o seu devido lugar, no fim dos tempos. Da mesma forma, devemos imitar a Cristo e nos esforçar para não julgar os outros. Devemos ser compreensivos e reconhecer que nós mesmos também falhamos e ficamos aquém do padrão de Deus. Em vez de julgar, devemos escolher encorajar os cristãos com bondade e amor a seguirem o Senhor, e ter grande cuidado ao apresentar Cristo aos que não são salvos, de uma maneira que represente corretamente o amor de Cristo por eles.
Andar humildemente com Deus
Por último, temos andar humildemente com Deus. O apóstolo Paulo resume muito bem essa questão quando, no capítulo três da sua carta a Tito, ensina como é andar humildemente com Deus (Tito 3:1-6).
Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam e estejam preparados para toda boa obra; que a ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas modestos, mostrando toda mansidão para com todos os homens. Porque também nós éramos, noutro tempo, insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias concupiscências e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros. Mas, quando apareceu a benignidade e o amor de Deus, nosso Salvador, para com os homens, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas, segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador,
É extremamente fácil nos orgulharmos de quão “espirituais” somos e tirarmos a humildade da nossa caminhada cristã. Passamos a pensar que somos bons porque escolhemos nos esforçar para ser boas pessoas. Esquecemos que nós também éramos ímpios e vivíamos no pecado. Esquecemos que não fomos salvos por sermos boas pessoas, mas porque Deus foi bom para conosco. Esquecemos que nunca teríamos vindo a Deus se Ele não tivesse nos amado primeiro. Jamais poderíamos ter vindo ao Pai se Ele não nos tivesse atraído a Si em amor. Por isso, louvado seja o Senhor, que escolheu convidar a todos nós para a Sua misericórdia quando levantou Cristo e atraiu todas as pessoas a Ele. Apesar disso, é fácil ser orgulhoso e tentar andar com Deus com desprezo por todos os que vivem no pecado ou num estado que consideraríamos menos do que ideal para um cristão. Quando fazemos isso, esquecemos que estávamos quebrados sem Deus e que não fomos nós que mudamos a nós mesmos. Tornamo-nos orgulhosos. Foi Deus quem começou a obra e continua a realizá-la até que Cristo volte. Não devemos nos concentrar no que os outros escolhem fazer. Devemos deixar isso com Deus e, em vez disso, escolher concentrar-nos na nossa própria caminhada, garantindo que estejamos sempre prontos para seguir a direção de Deus e fazer boas obras. Se começarmos a nos concentrar nos outros, começaremos a ficar cegos para as nossas próprias falhas. Ao nos compararmos com pessoas que achamos “piores” do que nós, nós nos exaltamos com orgulho. Em vez disso, devemos nos comparar com Cristo, o padrão perfeito, e de repente as nossas falhas se tornarão extremamente evidentes.
Esperamos que este post tenha ajudado você a compreender melhor o nosso dever como cristãos. Infelizmente, chegou a hora de encerrar a nossa série “As cinco palavras do Evangelho”. Espero que tenha sido uma bênção para você! Continuaremos a aprofundar a nossa compreensão do dever cristão numa série futura chamada “Cristianismo Prático”. Se ainda não o fez, inscreva-se para receber o Nerd in the Word por e-mail logo abaixo deste post. É grátis, e você será avisado no exato momento em que um novo post for publicado. Não se preocupe: o Nerd in the Word nunca vai encher a sua caixa de entrada com ofertas!
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