Bem-vindo à segunda parte da nossa série de cinco partes sobre as cinco palavras do evangelho. No último post, respondemos à pergunta: “O que é pecado?” Hoje vamos continuar o nosso estudo olhando para a forma como Deus lida com o nosso pecado. Mas, antes disso, quero começar dizendo que definir o sistema de juízo de Deus é algo que precisa ser feito com muito cuidado. A Bíblia nos adverte que não somos Deus e que não conseguimos pensar como Deus pensa, já que, por causa da nossa perspectiva limitada, não conseguimos compreender plenamente as nossas circunstâncias. Na verdade, essa é a principal lição do livro de Jó. Então, com isso em mente, precisamos aceitar que nunca entenderemos completamente o processo pelo qual Deus executa o seu juízo. Mas, apesar disso, ainda há verdades nas Escrituras que podem nos dar uma visão, ainda que limitada, de alguns dos princípios fundamentais do juízo de Deus.
O que é juízo?
As palavras hebraica e grega para “juízo” (mishpat e krisis) significam literalmente apenas “sentença ou punição”. As palavras hebraica e grega para o verbo “julgar” são basicamente iguais ao seu equivalente em português. A palavra hebraica é “shaphat”, que significa “julgar ou governar”, e a palavra grega é krínō, que significa “pronunciar uma opinião a respeito do que é certo e errado, ou reger ou governar”. Essas duas palavras não nos trazem nada que nos ajude a entender melhor o conceito de juízo ou a vê-lo sob uma nova luz, então vamos olhar para outra palavra relacionada ao juízo.
Uma das funções de um juiz é acertar as coisas entre quem cometeu o erro e quem foi prejudicado. Esse processo de acertar as coisas se chama “justiça”. Curiosamente, a palavra hebraica para justiça (tsĕdaqah) é exatamente a mesma palavra que nas Bíblias em inglês costuma ser traduzida como “retidão” (righteousness); em português, felizmente, as nossas Bíblias usam a mesma palavra, “justiça”, para as duas ideias. Ela carrega a ideia de “retificar” ou “acertar as coisas”. Isso nos ajuda a entender melhor o sistema de justiça de Deus, porque mostra que o objetivo de Deus é acertar as coisas. Também tem implicações interessantes, porque indica que um homem justo não é alguém 100% perfeito, mas alguém que procura corrigir os seus erros, acertando as coisas entre ele e os outros. Aqui temos algo que podemos usar para entender melhor o sistema de juízo de Deus. E olha só, agora temos um estudo bíblico de verdade acontecendo!
Como Deus faz justiça
No último post, expliquei que pecado significa literalmente “errar o alvo” e fiz uma comparação com os esportes, dizendo: “Não é muito diferente de uma bola fora ou de uma falta. A sua tarefa era colocar algo dentro da área válida de jogo, mas, como você não acertou, não chutou ou não arremessou direito, aquilo caiu em algum lugar fora dos limites.” Assim como nos esportes, quando você sai dos limites estabelecidos para você, há consequências.
Deus, como o “Juiz de toda a terra”, é o responsável por aplicar essas consequências por meio do seu juízo. Diferente do árbitro do jogo do seu time, Deus vê e sabe tudo, então ele nunca toma uma decisão errada. A partir daqui, poderíamos seguir por muitos caminhos diferentes tentando descrever como Deus julga. É fácil ficar profundamente filosófico sobre o assunto, mas percebo que isso costuma levar a falsas doutrinas. Então, em vez de deixar as coisas no campo da especulação, vamos olhar para o que Deus nos revelou na Bíblia. Afinal, isto aqui é o Nerd in the Word!
O juízo de Deus conforme definido na Bíblia (para manter este post coeso e curto, vamos tratar apenas do juízo de Deus no nosso dia a dia e deixar de lado, por enquanto, o juízo depois da morte).
Quando fala de juízo, a Bíblia tem uma pequena analogia muito boa chamada “semear e colher”, que pode nos dar um vislumbre do sistema de juízo de Deus.
Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.
Gálatas 6:7
O ímpio recebe um salário enganoso, mas, para o que semeia justiça, haverá galardão certo.
Provérbios 11:18
O que semear a perversidade segará males; e a vara da sua indignação falhará.
Provérbios 22:8
Semear e colher são termos da agricultura. Quando você planta uma semente, você a está semeando. Quando você colhe a planta que nasceu dessa semente, você está fazendo a colheita. Então, no caso de Provérbios 11:18, o versículo está dizendo: “Quem planta justiça vai colher uma recompensa.” Bem simples. Semear e colher é basicamente isto: tudo o que você fizer será feito de volta a você. Se você fizer o mal, o mal voltará para você. Se você fizer o bem, o bem voltará para você. Jesus diz isso desta forma:
Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; soltai, e soltar-vos-ão. Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando vos darão; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.
Lucas 6:37-38
(Onde a versão Almeida diz “soltai, e soltar-vos-ão”, a ideia é a de libertar alguém de uma dívida ou acusação, ou seja, perdoar: “perdoai, e sereis perdoados”.) Então Jesus está ensinando este conceito que, por mais louco que pareça, diz: “o que você faz aos outros é feito a você”. Na verdade, um pouco antes desta passagem, Jesus disse (Lucas 6:31):
E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira fazei-lhes vós também.
o que também é conhecido como a “regra de ouro”. Então precisamos concluir que Deus, como o “Juiz de toda a terra”, faz cumprir essa regra. Se ele faz isso movendo o coração das pessoas para fazerem coisas a seu favor ou contra você, ou conduzindo as circunstâncias para que você receba o que merece, isso não nos é dito. Mas o fato é que é assim que Deus diz que funciona.
Então agora sabemos que tudo de bom que fazemos é recompensado, e tudo de mau que fazemos é punido. Fácil, certo? Bem, ainda há um pouco mais. É aqui que precisamos trazer a definição bíblica de justiça que aprendemos: “acertar as coisas”. Deus tem algo que ele gosta de dar chamado “misericórdia”, o que é ótimo para nós. Se voltarmos à analogia de semear e colher, podemos notar que, na agricultura, existe um período de tempo entre a ação de semear e o resultado da colheita. Isso também se aplica ao juízo de Deus. Só porque pecamos, não significa que seremos punidos imediatamente por isso (embora, dependendo das circunstâncias, um juízo rápido possa acontecer). Durante esse tempo intermediário, Deus pode escolher ser misericordioso, retendo a punição, se a pessoa que errou se arrepender sinceramente dos seus atos e procurar, por conta própria, “acertar as coisas”. Vejamos como isso é dito em Isaías 55:6-8:
Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno, os seus pensamentos e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor.
Deus pode conceder um período de tempo para que uma ação seja objeto de arrependimento antes de executar o seu juízo. Ele fez isso com a cidade de Nínive, com Israel, com o rei Manassés e com uma multidão de outros, incluindo você e eu. Mas, embora Deus sempre perdoe um pecado, isso não significa necessariamente que as consequências também serão removidas. No pecado de Davi com Bate-Seba, Deus não permitiu que o arrependimento de Davi anulasse a sua punição. Nunca podemos saber com certeza se Deus será misericordioso e reterá a nossa punição quando procuramos acertar as coisas. O próprio Davi disse (2 Samuel 12:22):
Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e viva a criança?
Mesmo sem saber se o arrependimento vai impedir a punição, arrepender-se é sem dúvida melhor do que não se arrepender. Porque continuar no pecado só trará consequências mais graves e vai prejudicar você a longo prazo.
Deus pode permitir que pecados fiquem sem juízo por muito tempo; como já foi dito, Deus é misericordioso. Mas, apesar disso, está chegando um dia, no fim dos tempos, em que todos os pecados ainda não colhidos serão colhidos. Mesmo que alguém pareça ter passado pela vida sem ser punido pelos seus crimes contra o próximo, há um Juiz esperando do outro lado, pronto para acertar as coisas. Quando esse homem morrer, é bom que ele tenha um jeito de pagar todas as dívidas que deve. Mas é justamente disso que se trata a salvação, então aguente firme, logo vamos falar sobre isso!
Aplicação
Então agora sabemos um pouco sobre o sistema de juízo de Deus, mas o que isso significa para nós? Não adianta falar sobre isso se não fizer diferença no nosso dia a dia. Então aqui está a aplicação: seja a pessoa que você quer que todos os outros sejam. Seja rápido em servir os outros, deseje mais dar do que receber e faça do amor, e não do julgamento, a sua primeira reação. Se você fizer essas coisas fielmente, Deus promete que vai devolver a você as bênçãos que você deu aos outros. O meu desejo é que um dia todos nós aprendamos essa verdade simples, para que possamos ser uma bênção para os outros e ter as bênçãos de Deus sobre todas as nossas vidas.
Infelizmente, não temos tempo para incluir todos os outros temas sobre o juízo, como o inferno, o Grande Trono Branco, o Tribunal de Cristo (o Bema), o Lago de Fogo, o direito de Deus de julgar, ou como o juízo de Deus é algo bom. Então vamos parar por aqui hoje. Tenho certeza de que esses temas serão retomados mais adiante, então acho que você vai ter que ficar por dentro de todos os novos posts!
![Como Deus julga? As 5 palavras do Evangelho [Parte 2] Como Deus julga? As 5 palavras do Evangelho [Parte 2]](https://www.nerdintheword.com/wp-content/uploads/2017/09/gospels_five_words_judgment.jpg)

